Sobre cloroquina e sopa de galinha.
Iniciamos o post de hoje com uma pergunta: Todas as hipóteses devem ser testadas cientificamente?
A resposta (penso, e espero te convencer) é negativa. Nem todas as hipóteses, associações, ideias que pensamos devem - merecem - ser analisadas por estudos científicos aprofundados. Há alguns motivos principais para tal.
Em primeiro lugar, algumas hipóteses têm probabilidade pré-teste de serem verdadeira muito baixa - ou seja, a probabilidade de que a ideia seja verdadeira antes de que um estudo a analise é ínfima.
Tal probabilidade é determinada sobretudo por plausibilidade biológica (“faz sentido biológico” que um antibiótico mate bactérias?) e pelo conjunto de evidências prévio (os resultados de estudos prévios apoiam essa nova hipótese?).
Para entender as implicações disso, suponha que um estudo avalie uma ideia de baixa probabilidade pré-teste [que tal hidroxicloroquina em pacientes com COVID-19?] e tenha resultado positivo. A chance de que esse resultado seja falso-positivo será muito alta - afinal, partimos de uma hipótese esdrúxula; não precisamos de um estudo negativo para notarmos isso: é mais provável que o resultado seja devido ao acaso, e não reflita a realidade.
Em segundo lugar, lembremos que os recursos financeiros e pessoais são finitos - cabe buscar ideias condizentes, que mereçam o tempo e dinheiro dos investigadores e tragam retorno à sociedade.
Por fim, os estudos científicos não são inócuos: a realização dos estudos expõe os pacientes a risco; os resultados, além disso, serão aplicados e interpretados pela sociedade, podendo servir aos mais diversos propósitos - outro motivo para refletirmos se vale a pena testar hipóteses esdrúxulas, que se mostrarem benefício poderão ser cooptadas pelos anti-científicos defensores da ideia [isso te lembra de algo que começa com clor..?].
Feita a reflexão, analisaremos um artigo de 1978, publicado na revista Chest: “Effects of Drinking Hot Water, Cold Water, and Chicken Soup on Nasal Mucus Velocity and Nasal Airflow Resistance”.
O estudo testou se sopa de galinha ou água têm diferentes efeitos na resistência nasal ao fluxo aéreo e na velocidade de passagem do muco nasal. Não só isso - testou se água gelada ou quente e se o uso de canudinho para tomar os líquidos alteravam os efeitos observados.
O artigo, de tão pitoresco, vale a leitura - olhe apenas a descrição do procedimento empregado:
(Deixo para você a tarefa de imaginar como a velocidade de passagem do muco pelo nariz foi medida, não deixa de ser um teste de criatividade - depois cheque os métodos do trabalho).
Curiosamente, o estudo teve resultado positivo: na tabela 1, vemos como tomar sopa de frango quente aumentou a velocidade do fluxo de muco nasal 5min após o ato. Tomar água quente, também, e tomar sopa de canudo, um pouco menos.
Todos já ouvimos, e experimentamos na prática, que tomar uma sopa quente ajuda a melhorar o resfriado - nos anos 1100, Maimônides já descrevia a sopa de galinha como ótima medicação. Vamos aplicar a reflexão do post: era realmente necessário testar cientificamente essa ideia? Considerando a hipótese testada e a metodologia do estudo: agora que temos um resultado positivo, isso muda algo? Supondo que o estudo fosse negativo, isso mudaria algo?
Sugestões de leitura:
Vídeo - "Crenças sociais devem ser testadas cientificamente?", do prof. Luis Correia.
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