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Mostrando postagens de agosto, 2020

Sobre cloroquina e sopa de galinha.

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  Iniciamos o post de hoje com uma pergunta: Todas as hipóteses devem ser testadas cientificamente? A resposta (penso, e espero te convencer) é negativa . Nem todas as hipóteses, associações, ideias que pensamos devem - merecem - ser analisadas por estudos científicos aprofundados. Há alguns motivos principais para tal. Em primeiro lugar, algumas hipóteses têm probabilidade pré-teste de serem verdadeira muito baixa - ou seja, a probabilidade de que a ideia seja verdadeira antes de que um estudo a analise é ínfima. Tal probabilidade é determinada sobretudo por plausibilidade biológica (“faz sentido biológico” que um antibiótico mate bactérias?) e pelo conjunto de evidências prévio (os resultados de estudos prévios apoiam essa nova hipótese?). Para entender as implicações disso, suponha que um estudo avalie uma ideia de baixa probabilidade pré-teste [que tal hidroxicloroquina em pacientes com COVID-19?] e tenha resultado positivo. A chance de que esse resultado seja falso-positivo se...

Estudos clínicos de não-inferioridade - 3/3.

Nos posts anteriores, vimos o conceito de estudo clínico de não-inferioridade, que visam a testar se um novo medicamento possui efeito “não-inferior” a outro já aprovado para dada condição. Essa “não-inferioridade” (pequena perda do benefício principal) seria compensada por algumas vantagens a mais, como preço menor ou menos efeitos colaterais. Além disso, vimos que aspectos metodológicos desse tipo de estudo merecem atenção. Agora, vamos pensar o caso da apendicite . Recentemente, publicou-se estudo de não-inferioridade que comparou o manejo cirúrgico da apendicite ao tratamento apenas com antibióticos.  Em resumo, tratou-se de estudo não-randomizado (deu-se, aos responsáveis, a opção de escolher o manejo), que comparou tais opções de manejo da apendicite não-complicada em crianças entre 7 e 17 anos. O estudo avaliou: dias “perdidos” em decorrência do tratamento da apendicite; e taxa de sucesso do manejo não-operatório (proporção de pacientes tratados clinicamente que, após um an...

Estudos clínicos de não-inferioridade - 2/3.

Os estudos de não-inferioridade, como vimos no post anterior, testam se um novo medicamento possui efeito “não-inferior” a outro já aprovado como superior a placebo para dada condição. Tal novo medicamento traria vantagens a mais, como preço menor ou menos efeitos colaterais, que poderiam justificar seu uso se demonstrasse pouca perda de benefício em relação ao medicamento já usado - ou seja, se demonstrasse “não-inferioridade”. À primeira vista, percebemos a vantagem de realizar esse tipo de estudo: pode-se testar drogas que trariam novas vantagens; e pode-se avaliar drogas em situações nas quais utilizar placebo, e realizar um estudo de superioridade, não seria adequado. O problema consiste em que os estudos de não-inferioridade são, inerentemente, metodologicamente inferiores - (com perdão do trocadilho) - aos estudos de superioridade, pois têm susceptibilidade maior à ocorrência de vieses - no planejamento do estudo, na realização (instituição dos tratamentos) e na interpretação ...