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Mostrando postagens de julho, 2020

Estudos clínicos de não-inferioridade - 1/3.

Iniciamos aqui uma pequena série focada em estudos clínicos de não-inferioridade . Neste post, revisaremos a diferença entre tais ensaios e os ensaios clínicos de superioridade. No texto seguinte, discutiremos quando os estudos de não-inferioridade são, ou não adequados. No post final, discutiremos se esse é o modelo adequado de estudo para comparar o manejo não-cirúrgico x cirúrgico da apendicite, partindo de um estudo recente. Em medicina, há 2 tipos principais de ensaios clínicos que visam a comparar intervenções (medicamentos, cirurgias, etc.): estudos de superioridade e estudos de não-inferioridade. Para entender os estudos de superioridade , imaginemos uma situação hipotética em que uma “droga A” é desenvolvida, e deseja-se averiguar se reduz mortalidade cardiovascular mais do que placebo. Estabelece-se: Hipótese nula: droga A e placebo fornecem efeitos equivalentes para redução de mortalidade cardiovascular; Hipótese alternativa: droga A fornece benefício superior a place...

Análise - Dexametasona em adultos com meningite bacteriana.

Nesta categoria de posts, analisaremos artigos citados como referência em revisões do UpToDate. Na página do UpToDate Dexamethasone to prevent neurologic complications of bacterial meningitis in adults , lemos: The efficacy of dexamethasone in adults with bacterial meningitis in the developed world was best evaluated in a randomized trial in 301 patients from Europe with bacterial meningitis [ 8 ].  Analisaremos brevemente tal estudo , seguindo o roteiro descrito nos posts anteriores: Abstract:  O estudo testa intervenção com glicocorticoide adjuvante a antibioicoterapia em pacientes com meningite bacteriana;  Randomizado, duplo-cego, multicêntrico, placebo-controlado, análise por intenção de tratar;  Financiado por NV Organon Não parece um dado relevante, trata-se de intervenção barata; Os autores não declaram conflitos de interesse. Pergunta PICO:  População com mais de 17 anos, com meningite suspeita + LCF com algumas alterações Na "vida real" a antibioticot...

Como analisar ensaios clínicos randomizados - 2/2.

No post  anterior, vimos como começar a análise de um ensaio clínico randomizado. Neste post, descreveremos uma estatégia de leitura do artigo em si, baseada naquela ensinada no curso Saúde Baseada em Evidências. A leitura de um ensaio clínico randomizado (ECR), diferente da leitura casual e deleitosa, deve ser feita de modo ativo e crítico: trata-se sobretudo de buscar os defeitos de cada estudo, de modo a poder i nterpretar, com cautela, seus resultados e sua aplicabilidade. Em resumo, começamos lendo apenas o parágrafo final da introdução, que descreve a pergunta PICO do trabalho.  Em seguida,  dedicamos atenção especial aos  métodos; seguindo o acrônimo "RAMBO 2.0" , buscaremos  os os  vieses  principais do trabalho.  Após averiguá-los, analisaremos, tendo em mente a qualidade metodológica do estudo e os vieses que apresentar, seus resultados e sua aplicabilidade , seguindo o acrônimo VIA. A pergunta PICO: P: qual a p opulação do estudo? ...

Como analisar ensaios clínicos randomizados - 1/2.

Abordaremos, em 2 posts, duas estratégias para analisar ensaios clínicos randomizados. Os posts do blog nos quais analisaremos brevemente alguns artigos seguirão o roteiro aqui descrito. Esta estratégia baseia-se nas análise propostas no curso Saúde Baseada em Evidências e neste vídeo . Após seguir os passos descritos neste  post , teremos selecionado um artigo que merece nossa atenção. Começamos com o  abstract: lemos a introdução , com a qual formamos um panorama da evidência científica até então e da pergunta que guia o artigo; e os métodos , que nos informam um pouco da qualidade do trabalho e da probabilidade de vieses ("randomizado, duplo-cego, controlado com placebo" serão informados aqui). Não lemos os resultados e a conclusão do abstract, mas passamos à  fonte de finaciamento do artigo. Não descartaremos artigos financiados pela indústria farmacêutica, mas eles serão alvo de leitura ainda mais cuidadosa - especialmente quando a empresa houver participado no ...

Uma rotina para acompanhar e analisar a literatura médica.

A prática médica envolve várias habilidades: exame e raciocínio clínico; comunicação cuidadosa; conhecimento de aspectos administrativos e financeiros de planos de saúde e do SUS.  O  exame das evidências científicas -  a capacidade de analisar criticamente os estudos científicos - têm importância equivalente à do exame clínico, mas é uma habilidade pouco exercitada na universidade. Neste post, proponho uma rotina semanal de leitura científica, sugerida neste  vídeo Trata-se de estabelecer algumas revistas científicas, e ler suas páginas no dia em que os artigos são, a cada semana, lançados. Ex.: JAMA Internal Medicine (segunda-feira); JAMA (terça-feira); e NEJM (quarta-feira). Estratégia: ler (rapidamente, passando o olho) os títulos e abstracts de todos os textos publicados; em seguida, separamos aqueles que nos interessam de fato; ao final, teremos 1 ou 2 artigos.  Passamos, em seguida, a uma leitura cuidadosa do artigo (abordaremos, em textos futuros, como a...

Quem sou eu, e o propósito deste blog.

Sou Gustavo Leite Jacovelli, um estudante do quarto ano de medicina na FMRP-USP especialmente interessado em medicina baseada em evidências, filosofia da ciência e clínica geral.  "A medicina é a ciência de incerteza e a arte da probabilidade", disse o dr. William Osler em idos de 1800, ilustrando a natural imprevisibilidade de tudo que se relaciona à saúde (e à vida ;) ).  Muitas vezes, porém, nos esquecemos desse aspecto inerente à arte médica; nesses momentos, não entendemos  - "por que esse medicamento não tá ajudando?", "como é possível que ele tenha melhorado da noite pro dia?", "como ela nunca se expôs a fatores de risco e desenvolveu essa doença?", etc. Comumente, além disso, esquecemo-nos de que os conceitos que possuímos, estudamos e praticamos decorrem de estudos - começando com experimentais, até chegar aos ensaios clínicos, ou, às vezes, de estudos observacionais.  Tais estudos, apesar de serem a maneira mais fidedigna que temos de d...