Postagens

Sobre cloroquina e sopa de galinha.

Imagem
  Iniciamos o post de hoje com uma pergunta: Todas as hipóteses devem ser testadas cientificamente? A resposta (penso, e espero te convencer) é negativa . Nem todas as hipóteses, associações, ideias que pensamos devem - merecem - ser analisadas por estudos científicos aprofundados. Há alguns motivos principais para tal. Em primeiro lugar, algumas hipóteses têm probabilidade pré-teste de serem verdadeira muito baixa - ou seja, a probabilidade de que a ideia seja verdadeira antes de que um estudo a analise é ínfima. Tal probabilidade é determinada sobretudo por plausibilidade biológica (“faz sentido biológico” que um antibiótico mate bactérias?) e pelo conjunto de evidências prévio (os resultados de estudos prévios apoiam essa nova hipótese?). Para entender as implicações disso, suponha que um estudo avalie uma ideia de baixa probabilidade pré-teste [que tal hidroxicloroquina em pacientes com COVID-19?] e tenha resultado positivo. A chance de que esse resultado seja falso-positivo se...

Estudos clínicos de não-inferioridade - 3/3.

Nos posts anteriores, vimos o conceito de estudo clínico de não-inferioridade, que visam a testar se um novo medicamento possui efeito “não-inferior” a outro já aprovado para dada condição. Essa “não-inferioridade” (pequena perda do benefício principal) seria compensada por algumas vantagens a mais, como preço menor ou menos efeitos colaterais. Além disso, vimos que aspectos metodológicos desse tipo de estudo merecem atenção. Agora, vamos pensar o caso da apendicite . Recentemente, publicou-se estudo de não-inferioridade que comparou o manejo cirúrgico da apendicite ao tratamento apenas com antibióticos.  Em resumo, tratou-se de estudo não-randomizado (deu-se, aos responsáveis, a opção de escolher o manejo), que comparou tais opções de manejo da apendicite não-complicada em crianças entre 7 e 17 anos. O estudo avaliou: dias “perdidos” em decorrência do tratamento da apendicite; e taxa de sucesso do manejo não-operatório (proporção de pacientes tratados clinicamente que, após um an...

Estudos clínicos de não-inferioridade - 2/3.

Os estudos de não-inferioridade, como vimos no post anterior, testam se um novo medicamento possui efeito “não-inferior” a outro já aprovado como superior a placebo para dada condição. Tal novo medicamento traria vantagens a mais, como preço menor ou menos efeitos colaterais, que poderiam justificar seu uso se demonstrasse pouca perda de benefício em relação ao medicamento já usado - ou seja, se demonstrasse “não-inferioridade”. À primeira vista, percebemos a vantagem de realizar esse tipo de estudo: pode-se testar drogas que trariam novas vantagens; e pode-se avaliar drogas em situações nas quais utilizar placebo, e realizar um estudo de superioridade, não seria adequado. O problema consiste em que os estudos de não-inferioridade são, inerentemente, metodologicamente inferiores - (com perdão do trocadilho) - aos estudos de superioridade, pois têm susceptibilidade maior à ocorrência de vieses - no planejamento do estudo, na realização (instituição dos tratamentos) e na interpretação ...

Estudos clínicos de não-inferioridade - 1/3.

Iniciamos aqui uma pequena série focada em estudos clínicos de não-inferioridade . Neste post, revisaremos a diferença entre tais ensaios e os ensaios clínicos de superioridade. No texto seguinte, discutiremos quando os estudos de não-inferioridade são, ou não adequados. No post final, discutiremos se esse é o modelo adequado de estudo para comparar o manejo não-cirúrgico x cirúrgico da apendicite, partindo de um estudo recente. Em medicina, há 2 tipos principais de ensaios clínicos que visam a comparar intervenções (medicamentos, cirurgias, etc.): estudos de superioridade e estudos de não-inferioridade. Para entender os estudos de superioridade , imaginemos uma situação hipotética em que uma “droga A” é desenvolvida, e deseja-se averiguar se reduz mortalidade cardiovascular mais do que placebo. Estabelece-se: Hipótese nula: droga A e placebo fornecem efeitos equivalentes para redução de mortalidade cardiovascular; Hipótese alternativa: droga A fornece benefício superior a place...

Análise - Dexametasona em adultos com meningite bacteriana.

Nesta categoria de posts, analisaremos artigos citados como referência em revisões do UpToDate. Na página do UpToDate Dexamethasone to prevent neurologic complications of bacterial meningitis in adults , lemos: The efficacy of dexamethasone in adults with bacterial meningitis in the developed world was best evaluated in a randomized trial in 301 patients from Europe with bacterial meningitis [ 8 ].  Analisaremos brevemente tal estudo , seguindo o roteiro descrito nos posts anteriores: Abstract:  O estudo testa intervenção com glicocorticoide adjuvante a antibioicoterapia em pacientes com meningite bacteriana;  Randomizado, duplo-cego, multicêntrico, placebo-controlado, análise por intenção de tratar;  Financiado por NV Organon Não parece um dado relevante, trata-se de intervenção barata; Os autores não declaram conflitos de interesse. Pergunta PICO:  População com mais de 17 anos, com meningite suspeita + LCF com algumas alterações Na "vida real" a antibioticot...

Como analisar ensaios clínicos randomizados - 2/2.

No post  anterior, vimos como começar a análise de um ensaio clínico randomizado. Neste post, descreveremos uma estatégia de leitura do artigo em si, baseada naquela ensinada no curso Saúde Baseada em Evidências. A leitura de um ensaio clínico randomizado (ECR), diferente da leitura casual e deleitosa, deve ser feita de modo ativo e crítico: trata-se sobretudo de buscar os defeitos de cada estudo, de modo a poder i nterpretar, com cautela, seus resultados e sua aplicabilidade. Em resumo, começamos lendo apenas o parágrafo final da introdução, que descreve a pergunta PICO do trabalho.  Em seguida,  dedicamos atenção especial aos  métodos; seguindo o acrônimo "RAMBO 2.0" , buscaremos  os os  vieses  principais do trabalho.  Após averiguá-los, analisaremos, tendo em mente a qualidade metodológica do estudo e os vieses que apresentar, seus resultados e sua aplicabilidade , seguindo o acrônimo VIA. A pergunta PICO: P: qual a p opulação do estudo? ...